Experiment* #1







Lançamo-nos num abismo todas as manhãs. Estamos sempre aqui, sempre estivemos… (Bem, não “aqui”, mas presumo que entendam.)


De olhos ainda entreabertos bate-se o espaço. Devassam-se as provas de que tudo mudou. (Assim, inocentemente…:) Que nós mudámos, a cidade mudou, e que há uma nova vida à espera lá fora.
Podíamos dissertar sobre tudo o que esperamos que se altere, sem nunca fazer algo de significativo para que isso aconteça. Mas aqui…! Aqui é como se tudo tivesse um tempo e uma vida própria.

Não é?

Desmultiplicamo-nos em pernas trémulas braços vigorosos pulmões a meio gás faces olhos perversas mentes sábias pedras da calçada soltas em terra batida de edifícios velhos apaixonantes copos de plástico vazios autocarros atrasados animais felizes fluentes livres pensadores doutores usurpadores artistas linguistas magistrados frustrados papéis na reprografia esperando acção política caseira sobrevivência constante estudante que passa alta e baixa vazia jardim verde bairro e avenida. Aqui em todo o lado há vida.


Não há?

Boa ou má, persegue-nos, e nós a ela, procurando ganhar o jogo da caça ao tesouro. Ambos somos piratas. Nós e a Vida, digo. Nós e Coimbra. Coimbra e a Vida, habitada por piratas predadores.

Piratas da arte predadores da lei da saúde piratas da sabedoria predadores do amor das palavras predadores pirateados infelizes errantes descontentes com tudo o que não caçam com o que não é possível saquear por nem sequer estar à vista.

E não é nada fácil ser pirata.

Coimbra tem uma perna de pau e um olho em falta. Vê pouco, anda devagar e bebe muito, mas parte rumo à conquista. E às vezes até ganha.

Prende-nos pela sua mística, pelos lugares comuns que já ultrapassaram o espaço da memória. São nossos. E estamos vinculados ao vazio da explicação inexistente.

Afinal estamos aqui só porque sim…

Amamos e odiamos a cidade porque sim vivemos tudo em falta de algo melhor sem consciência de que podíamos tê-lo feito exactamente agora.

Somos Coimbra e fugimos a querer voltar. Damos a querer receber. Sugamos tudo e restituímos o caroço.
Saqueemos inversamente a vida a esta cidade! Declaremos luta ao nosso âmago! Sejamos nós pernas olhos mente e coração deste predador entorpecido!





C.S.

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